23/9/2009
Um ídolo, enfim, eternizado


Uma torcida homenageia seu ídolo falando dele com admiração e orgulho para as pessoas, para seus filhos, netos... Esse simples gesto, que se repete e se propaga, evita o esquecimento de quem merece ser eternamente lembrado. Ah, mas a memória tem seus truques e armadilhas e, uma torcida apaixonada e insaciável, também faz homenagens com camisas, bandeiras e pinturas nos muros da cidade. Haveria prova maior de amor e reverência do que essa? Uma torcida, não satisfeita com todos esses gestos de idolatria, preparou algo magistral ao seu maior ídolo.

Quinze cotas foram divididas entre alguns botafoguenses para financiar o projeto. Eles preferem o anonimato e esperam que essa homenagem sirva de exemplo a outros alvinegros que queiram ajudar a construir um Botafogo respeitado e forte.

O botafoguense e artista plástico Edgar Duvivier - escultor dos monumentos Princesa Isabel (Copacabana), Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitzchek (Niteroi), entre outros - é o responsável pela criação da estátua e a pedido do site, explicará como ela foi feita.

Site Nilton Santos: O que é preciso para fazer uma estátua desse porte? Quais são as etapas e quanto tempo levou pra ficar pronta?
Edgar Duviver: Primeiro escolhemos as fotos e decidimos a posição que vamos retratar. Em seguida, fizemos uma ou duas maquetes e o aumento para o tamanho final, a que foi aprovada. No caso do Nilton, 2,50 metros. Como esqueleto de sustentação, fiz uma armação de ferro, arame e tela e depois foi colocada argila (300kg) em cima dessa estrutura, que vai sendo moldada até que os traços representem com fidelidade o homenageado. Uma vez pronta, faço a fôrma em gesso e envio para ser fundida em bronze. Esta etapa também é bastante trabalhosa. É feita uma forma em cera, em vários pedaços, o retoque e, em seguida, a cobertura com material refratário. Depois cada um desses pedaços são preenchidos com bronze derretido. Uma vez esfriado, abre-se as formas e os pedaços são retocados, lixados, soldados e por último, "patinados", escurecidos, pois o bronze em sua cor natural é muito dourado e brilhante. Dediquei-me exclusivamente a essa escultura e levei 90 dias para completar todo o processo.

SNS: Como foi feita a escolha do molde?
ED: Nós pensamos que era preciso representar o Nilton como um campeão. Com dignidade. Com o domínio da bola, mas numa pose de controle. Retratei-o com o pé sobre a bola olhando confiante para frente. Quando ele esteve em minha casa para ver a estátua, perguntaram se ele se achava parecido. Ele se emocionou e disse: "Sim, está com sorriso de vitorioso!" E com modéstia, acrescentou: "Eu não mereço tanto".

SNS: Qual é a importância desse tipo de homenagem, através de um monumento, da arquitetura?
ED: Desde os tempos pré-históricos, a escultura é uma maneira de se atingir a eternidade. Uma maneira de se vencer o tempo e a morte, pela perenidade da forma. Para os primitivos, esculturas e totem guardam a alma das pessoas e habitam num estágio intermediário entre os mundos, servindo de embaixadores entre o lá e o cá. Para os gregos antigos, só campeões olímpicos mereciam ser retratados, e assim começou a arte escultórica grega que marcou o início da arte ocidental e é símbolo de harmonia. A escultura é indubitavelmente uma maneira de se sobreviver ao tempo, de imortalizar. Como qualquer arte, ou qualquer coisa, nunca se agradará a gregos e troianos. Para mim, o mais importante é que ela consiga, de certa forma, elevar os sentimentos das pessoas. No caso do Nilton, que seu olhar de vencedor e sua atitude de confiança atinja nossos corações e ajude a nos dar força.

A inauguração da estátua do Nilton Santos será no próximo domingo, 27 de setembro, às 16h30m, antes do jogo contra o Vitória, na entrada oeste do Engenhão. A cerimônia vai ser aberta à torcida e contará com a presença de sua esposa, Maria Coeli, que o representará, de ex-jogadores e de pessoas que conviveram e são amigos de Nilton, além de um representante do Botafogo, já que o clube apóia a iniciativa.