Cacá

Carlos Castro Borges, mais conhecido como Cacá, jogou ao lado de Nilton Santos no Botafogo por mais quatro anos. Porém não dividiram o campo apenas como companheiros de time; em 1957, eles se enfrentaram na disputa pelo título estadual. Nilton, pelo Botafogo, levou a melhor, ganhando de 6 a 2 sobre o Fluminense de Cacá. A amizade, no entanto, não se resume somente ao futebol: até hoje eles são grandes amigos e se encontram todo sábado, sem exceção. E para a visita ao amigo, Cacá sempre leva um doce ou chocolate para o nosso eterno craque guloso.

Para saber mais sobre essa amizade e conferir alguns segredinhos do Nilton, é só curtir o bate papo com o Cacá, o nosso entrevistado do mês de julho do Amigos do Nilton.

Amigos do Nilton: Cacá, você nasceu aonde e em que ano?
Carlos Castro: Eu nasci em Botafogo, no Rio de Janeiro, no dia 31 de agosto de 1932.

Amigos do Nilton: Você lembra quando foi a primeira vez que você conheceu o Nilton Santos? Como foi esse encontro?
CC: Eu sempre fui torcedor do Botafogo e, por isso, frequentava o Clube com o meu pai, antes mesmo de começar a minha carreira de jogador. Como eu conhecia o Octávio Morais, ex-jogador, eu tinha contato com alguns jogadores do Botafogo da época, entre eles o Nilton Santos.

AN: Você era o lateral direito do Fluminense na final de 1957 contra o Botafogo. Como foi enfrentar o Nilton Santos?
CC: Na verdade, desde 1952, no América, eu já enfrentava o Nilton. E eu era da posição bem contrária a dele em campo, de lateral direito. Ele era um jogador excepcional, mas como eu já o via a jogar há bastante tempo, conhecia as suas malandragens. Mas mesmo assim era um adversário bem difícil.

AN: Três meses depois desta final, você foi transferido para o Botafogo. Como foi chegar ao time do já renomado Nilton Santos?
CC: Depois daquela final, saiu a lista de convocados para a Copa do Mundo de 1958 e eu era um deles. Então, antes de chegar ao Botafogo, eu comecei a treinar com o Nilton na concentração da Seleção. Como eu já conhecia o Didi - jogamos juntos por um ano no Fluminense - eu tinha um conhecido em comum lá dentro; e foi aí que comecei a ter contato com o Nilton Santos.

AN: E nessa época você e o Nilton já eram amigos?
CC: Não. A amizade começou no Botafogo mesmo. Como o time do Botafogo tinha muitos campeões mundiais (da Copa do Mundo de 58), nós viajávamos pelo Brasil e mundo afora, porque todos queriam nos ver jogar. Todas essas viagens fizeram com que nós, os jogadores, ficássemos muito próximos; passávamos a semana toda juntos, a convivência era enorme e ela nos tornou amigos.

AN: Como era o relacionamento do Nilton com os outros atletas e funcionários do clube?
CC: Ah.... o melhor possível! O Nilton sempre foi um gozador, brincava com todo mundo. E sempre foi muito querido, gostava e falava com todos, desde o porteiro quando entrava ao garçom na hora do almoço. Tinha um garçom, apelidado de Casado, que sempre brincava com ele. Ah, e tinha o barbeiro! No porão de General Severiano tinha uma barbearia; o Nilton vivia lá, adorava cortar o cabelo.... ele tava sempre nos trinques (risos).

AN: Nos treinos e concentrações, o Nilton estava no grupo dos jogadores mais certinhos ou era mais bagunceiro?
CC: Ele nunca foi de bagunça. Tinha a turma do batuque, a turma da sinuca, a turma do baralho... o Nilton não gostava de nada disso. Ele vivia descansando, falava que tava com sono e ficava deitado na cama acumulando energia pros jogos. Ele ficava todo coberto, só com os olhos de fora; e, quando alguem zoava ele, ele chiava... a gente chamava ele de “chiador” porque ele sempre dizia: “Vocês não tem nada pra fazer não? Deixa eu descansar!” (risos)

AN: Como era a preparação do Nilton para entrar em um jogo?
CC: Tinha jogador que ficava horas aquecendo, alongando... o Nilton não. Como eu disse, ele vivia deitado; dizia que tava acumulando energia para gastar no jogo.

AN: Conte-nos uma história curiosa sobre o Nilton jogador:
CC: Teve um treinador que resolveu no dia anterior ao de um jogo colocar os jogadores pra correr. Tínhamos que fazer uns piques de 100 metros. E ele dizia “Faz mais um, agora pra lá, vamos correr!’. Aí o Nilton resolveu ir lá falar com ele e disse na cara de pau “Professor, a gente tá correndo aqui hoje mas amanhã, enquanto você vai ficar sentado, nós vamos correr atrás dos adversários. Então se eu correr tanto assim hoje, amanhã tô cansado”. (risos)

AN: E o Nilton como pessoa, tem alguma história marcante?
CC: O Nilton sempre fez de tudo para ajudar a todos... as vezes um camarada parava de jogar e ficava sem grana, ele recolhia com todo mundo para poder ajudar os amigos. E tem muitas outras histórias... mas nem tudo eu posso contar, né?!

AN: Vocês são muito amigos até hoje. Como descreveria essa amizade, que ultrapassou a convivência nos clubes e gramados?
CC: É uma amizade pura, sem interesse. Por isso que durou. É única e exclusivamente por afinidade e fraternidade.

AN: Quando vocês se encontram, qual o assunto que toma conta da conversa?
CC: Fatos passados! A gente relembra as histórias, os amigos... como a minha memória é melhor que a dele, ele fica me perguntando por amigos antigos, jogos, viagens.... E eu sempre mexo muito com ele. Quando o acho desanimado, logo digo que tenho um grupo de loiras para mexer com ele. Ela então, rapidamente, olha pra mulher e diz: “Esse Cacá tá doido....”

AN: Você conheceu o Nilton bem jovem e agora convive com um Nilton mais experiente. Ele mudou muito desde então ou continua sendo a mesma pessoa?
CC: Não mudou nada, é a mesma pessoa. Sempre foi gozador, sempre teve mordacidade e sempre adorou ficar deitado. Nunca foi de comer muito, sempre foi muito magrinho... mas sempre adorou doce e sorvete!